O Mito E A Mente

Erick Matheus

08-03-2016

Mito 1

O mito é parte indissociável do pensamento humano. O homem, enquanto humano, é um constante elaborador e reelaborador de símbolos significantes; tais símbolos, organizados em uma narrativa épica e, sobretudo, enquanto possuidores de sentido, configuram-se como mitos. Tais mitos são comuns, em sua enorme variedade de formas, a todas as eras da humanidade, configurando-se como parte fundamental da experiência existencial do Ser.

O homem pensa o mito desde tempos imemoriais. É bem provável que tal premissa do desenvolvimento cognitivo humano não tenha sido um trunfo único do homo sapiens, sendo, no entanto, difícil evidenciar ou mesmo datar um momento mais preciso para o início do pensamento mítico. Entrementes, sabe-se que a produção de narrativas míticas e a criação de linguagens simbólicas é concomitante ao desenvolvimento cerebral, devido às maximizações das capacidades de abstrair e construir cadeias de pensamento mais complexas.

Não obstante, o que é invariável, até os dias hodiernos da história humana, é a profunda ligação entre o Ser, a mente e o mito. O mito, portanto, pode configurar-se como elemento de parâmetro para a angustiante existência humana, um conjunto subjetivo de significados, como pensa-o Joseph Campbell e Walter Burket. O mito então seria, deveras, significante; um conjunto abstrato de símbolos produzidos de forma subjetiva para permear a psique e dar significado aos mais diferentes fenômenos naturais, sociais e psicológicos que regem a realidade humana.

Mito 2

Para Jung, a experiência, mítica nasceria no inconsciente, produto dos arquétipos. Os mitos seriam, portanto, produtos anímicos do inconsciente coletivo, expressões de uma herança comum, de uma mentalidade primitiva. Os mitos, sendo assim, serviriam para intermediar o consciente e o inconsciente, sendo expressões da memória arcaica da humanidade e, como tal, para serem integralmente vivenciados, precisariam de ser sintetizados de forma inteligível através de narrativas, rituais e outros meios simbólicos. Essa herança psicológica, comum a todos os humanos, garantiriam uma homogeneidade ao pensamento mítico. Analisando isto e munido das concepções de Jung, Joseph Campbell formulou, em 1949, a teoria do Monomito. Analisando diversos conjuntos míticos, Campbell aponta as nuances entre os mais diversos sistemas mitológicos, no que ele denomina de A Jornada do Herói, uma complexa epopeia, permeada de fases, que seriam comuns às mais diferentes narrativas míticas, em virtude de serem expressões do inconsciente e de uma psique humana universal.

Na concepção freudiana, os mitos seriam a tradução do inconsciente de um povo. Seriam nesses que os tabus se exemplificariam de forma subjetiva. Nesta perspectiva, o sonho e o mito se entrelaçam, sendo a representação onírica uma produção mítica do inconsciente a nível individual. Seguindo uma perspectiva diferente da de Freud, Mircea Eliade divide a humanidade entre homo religiosus e homo profanus, diferenciando o primeiro como um Ser que pensa predominantemente de forma mítica e o segundo como um Ser que, possuidor de uma mentalidade diferente, oriunda de fatores históricos e sociais, se afasta do pensamento mítico, ou melhor, o dessacraliza, conservando seus rituais sem empregar nos mesmos uma significação transcendente ou metafísica.

Para finalizar, podemos concluir que a relação entre o homem, a mente e o mito independe do estado de evolução histórica ou das perspectivas filosóficas, religiosas e ideológicas predominantes, pois a essência do mito não se reduz, em si, ao sacro ou temporal, mas intrínseco à psique, permeia toda a história humana, evidenciando-se em diferentes formas.


Erick Matheus é graduando de história na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e colunista convidado de |O Psicologista|.

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